quinta-feira, 22 de julho de 2010

Quase ela

E, perante todas as criaturas que a natureza um dia se esforçou em criar, aquela era dona de todo meu apreço... Talvez pela relação próxima que o destino proporcionou para nós, talvez não. Na verdade, trata-se de um sentimento que eu nunca conseguirei explicar por completo.
Minha vida sempre foi continuamente a mesma. O mesmo chão, as mesmas cadeiras, a mesma cama. No teto, eu sempre encontrava um telhado ou outro que chamava a minha atenção, enquanto eu estava em devaneios. Mas não era algo que tomava minha atenção por muito tempo. Até o copo de água conseguia me paralisar, mas não demorava tanto. E aquilo me fazia entender que eu precisava de mais. Era como um buraco aberto em minha mente, e a escuridão era impossível de ser penetrada. E eu nunca fui uma pessoa capaz... Evitei sempre os grandes desafios, porque de certa forma eu não fui bom em entender sozinho o mundo.
Mas eu me acostumei a morar nessa casa, sem ninguém ao meu lado. Mesmo sabendo que minha capacidade de continuar era mínima, contentava-me a idéia de estar ali, por mais que vegetando. Só que por mais que eu evitasse, eu passaria por mudanças.
Foi quando eu conheci a Nina. Ela estava solitária – não tanto quanto eu, já que ela tinha quem cuidasse dela, mesmo que indiretamente – e eu estava a passear pelo mercado, ao fim da tarde... mas quando eu notei aqueles olhos tristes por entre as grades, foi como se algo dentro de mim começasse a fazer sentido. E eu não sei explicar, nunca saberei.
Trouxe-a para minha casa por 100 contos de réis, já que era a unidade monetária machadiana, e isso causaria certo requinte na história que eu estava prestes a vivenciar. E, durante alguns momentos eu me pegava acariciando aqueles pelos macios de uma beleza canina jamais vista antes pelos olhos meus.
E foi assim que eu percebi o quão nocivo eu era para as regras previamente definidas pela sociedade humana que eu não fazia questão de participar. O homem foi feito para a mulher e vice-versa. Mas eu não sou e nunca fui um homem. Eu sou um macho, Nina é uma fêmea. E nunca ninguém terá o direito de intervir no meu amor por este ser divino.
Mas ela não me quer, na verdade ela sempre me olha e me dá carinho, mas eu sei que ela só vê a mim como um mísero amigo. Visão esta que não me satisfaz. Mas eu anistiar-te-ei, já que de mim não aprendeste a gostar.
E por mais efêmero que isso possa ser, esse amor não correspondido foi o que fez meu sangue finalmente correr e os meus telhados nunca mais serão o mesmo, pois sob eles estarão a prova de tudo que eu digo, o cadáver de um amor.