E aquele sangue que escorreu pelos seus pulsos foi a maior tragédia que aqueles olhos cansados foram capaz de cheirar. O indicador, pobre indicador. Talvez uma eternidade não fosse o suficiente para apagar os estragos que aquilo tinha causado a sua retina, talvez estar cego fosse a melhor solução.
Matias tinha a fama de homem do mundo. Talvez aquilo não fosse no sentido perjorativo, provavelmente tratava-se de algo mais profundo que isso. Seus pés já deixaram marcas por muitas estradas, e seu corpo já deitara em diversas camas, até mesmo em chãos. A morte de seus pais fazia-o acreditar que o seu lar fosse o mundo, não aquela velha casa de barro no 171.
Dono de uma beleza que dispensava questionamentos negativos, este jovem - agora por volta dos seus 25 anos - fez a sua vida assim, desde o início da adolescência. Conhecer o mundo era a sua atividade favorita. Talvez sua única atividade, e esta tenha sido a razão de nunca a ter deixado de lado.
Quando criança, a sua mãe o dissse que o arco-íris era uma ilusão de ótica. E que ninguém era capaz de ver a mesma imagem colorida que rasgava o céu com tanta delicadeza, como uma espada que cortasse a jugular de uma inocente alma indefesa, durante o sono. Sem dor.
Desde então ele viveu como se não tivesse dois olhos, e sim apenas um, pois ele passou a entender que o mundo era visto daquela forma apenas por ele. E ele não sentia vontade alguma em compartilhar aquela beleza com ninguém.
"Eu nunca consegui penetrar na sua alma, seus olhos não tem cor."... Essa era a reclamação de Catherine, mais uma de suas amantes, que vagava pelo mundo como um corpo sem alma, mas um corpo com beleza o suficiente para prender Matias no mesmo lugar por mais de uma noite. "Boa noite, Catherine.", sussurou para a dama enquanto completava o egocêntrico ato de enrolar-se. Mas o que ele não notou - ou talvez o tenha feito -, é que esse cobertor não era suficiente para os dois. Enrolou-se e em questão de segundos estava adormecido, como um cadáver. Indiferente, a moça virou-se e contemplou o relento com a sua pele ouriçada.
E assim passou-se uma semana ao lado daquela moça. Matias nem lembrava direito o nome desssa criatura que se importou tanto em cruzar seu caminho. "Dorme comigo?", sussurrou no seu ouvido, enquanto ele degustava as últimas gotas do seu uísque duplo, a bebida favorita de qualquer estabelecimento que visitava pela primeira vez. Depois de segundos em silêncio, olhou para o busto de Catherine, pegou-a pela mão e foi para o quarto mais próximo, onde tiveram uma noite de amor, ou uma noite de sexo.
Essa não era a primeira relação amorosa do Matias depois de sua partida da casa 171. Era uma das várias que ele costumava levar consigo e largar no dia seguinte. Mas, por algum motivo afim, essa foi a única que ele manteve perto por um período de 7 dias.
7 dias. Gênesis. Ínicio das coisas. Negritude. Faça-se o tudo!
"Eu não suporto mais esse seu silêncio! Basta!". E ela seguiu em direção à porta, sem olhar para trás. Enquanto isso, Matias olhava aquela cicatriz no seu punho. Foi uma queda afim, enquanto pulava a cerva de sua antiga moradia, para caçar uma lebre que pulava com alegria naquele espaço. Ao atravessar os arames, ele ficou gravemente preso e a profundidade dos cortes impediram que seu dedo indicador da mão direita continuasse a funcionar como de costume. Então, ele não era se quer capaz de apontar para uma pessoa, pois a ereção do seu dedo foi afetada por tal queda, e essa cicatriz sempre o capturava do mundo por cerca de 9 minutos.
Ainda a soluçar, Catherine bateu a porta com toda a força que ainda te restava, mas era uma força feminina, incapaz de causar um estrondo. Matias nem sequer olhou para trás.
Mesmo a maior das dores não fosse capaz de trazê-lo ao espaço em que seu corpo inerte perambulava.
A vida tinha ensinado a esse jovem que olhar para trás não era permitido. Um horizonte o esperava, uma reencarnação a cada passo que dava, uma nova vida. Uma nova morte.
Agora sim o estrondo aconteceu, e vinha da rua que supostamente - na mente do Matias - Catherine estava a atravessar. Como que instintivamente, ruídos, passos, pessoas, sons. E aquilo finalmente chamou a atençao do Matias, o que o fez olhar para trás, mas a altura da cama em relação a janela não colaboravam. Era necessário levantar.
Ao passar os seus olhos negros pela janela um pouco fosca, Ele percebeu um movimento peculiar no meio da rua. E, repentinamente, ele correu em direção ao local. Era o fim do sétimo dia para ele.
- Nunca mais Matias foi visto, nunca mais ele teria a chance de ser compreendido. Talvez por vontade própria. -
Ao chegar no local exato, enxergou Catherine, de bruços, com sua cabeça semi-aberta, vítima de um tiro. Matias sentiu seu coração arder ao gelo. O marco zero. O ciclo vital da vida que encontrava ali o seu fim e o seu recomeço. A cruz manchada de sangue que agora virava luz, redenção.
E dos olhos de Matias saíram lágrimas, enquanto agachava-se e tocava o rosto de Catherine, agora de corpo virado, com o seu dedo incapaz. O dedo que nunca teve a força suficiente, hospedeira do corpo que nunca teve a capacidade de enfrentar a si mesmo. O homem frio era apenas uma casca, uma alma perdida que não sabia como lidar com o círculo, com o Gênesis, com o Apocalipse.