sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Tesouro

E dentre muitos, ela se sentia só. Mas não se tratava de uma solidão que poderia ser aveludada com uma musica mais profunda ou com um vinho mais amargo. Na verdade, ela nunca tinha encontrado ninguém. O mundo, essa idéia plural da existência de seres vivos não cabia em sua mente, era apenas um sonho que nunca povoara seus sonhos à noite.

Essa garota morava há muito tempo em uma sala escura. Por volta de 19 anos. Tudo que existia era ela, uma lâmpada e um dicionário velho, corroído pelos bichos que ali existiam... Toda noite ela tinha uma felicidade rápida, pois no canto esquerdo do seu quarto havia um buraco de tamanho médio, por onde passavam coisas que ela adorava colocar na boca. Tinham vários formatos, cores, sabores e aquilo era o ‘mundo’ dessa jovem. Como nunca tinha encontrado semelhante, não sabia pronunciar uma palavra sequer, de nenhuma língua. E devido a isso, todos os seus pensamentos eram arcaicos e animalescos. Não tinha idéias organizadas ou vontades que fossem além de uma mosca ou de uma barata. Sabia que seu corpo necessitava jorrar um líquido amarelo, que seus olhos coçavam e que sua barriga doía uma ou duas vezes por dia... E com o tempo ela foi percebendo o cheiro desagradável que algumas dessas necessidades causavam, e, mesmo precisando saná-las, não deveriam continuar ali depois de feitas. Daí ela criou um buraco onde sempre que necessitava, o procurava.

Já que ela não tinha sentimentos mais complexos, para ela aquilo era o mundo e tudo aquilo eram motivos para que ela quisesse continuar viva... Certa vez, ela tropeçou pelas próprias pernas e caiu. A dor foi de tanto tamanho que nunca mais a garota desejou fazer o mesmo. Inconscientemente, ela estava prezando pela própria vida.

Mas, depois de tantos anos, aquela criatura muda, sem nenhuma capacidade meramente humana deu um grito. O barulho estrondou quarteirões, em plena madrugada. Mas seu som rouco não era de muito abalo, seria talvez se sua alimentação e exercícios diários fossem de fato regulares. Mas aquele grito incomodaria qualquer um. Especialmente um que acompanhasse o crescimento dessa criatura bizarra, desde o princípio.

Ela é minha filha, não deveria deixá-la lá por tantos anos. Talvez eu não queria que ela se tornasse o mesmo que seu pai. Uma assassina. Não queria que ela presenciasse o meu desejo mortal de rasgar peles humanas e coletar todas as entranhas, o que me causava uma espécie de orgasmo. Ela merecia mais que isso. E não ser humana era o melhor que eu poderia fazer no momento. Mas ela gritou e esse gritou me afetou profundamente. Um momento.

Pronto, já abri a porta do porão onde ela se encontra, basta ela empurrar e estará livre para conhecer o mundo, como um ser selvagem que se perde da selva. Vou sentar e aguardar, o veneno fará efeito em mim, é apenas questão de segundos.

Crer

Toda crença é válida. Todo conhecimento é estimado. Mas a relação entre cada opinião traz a beleza.

No decorrer da vida, o homem vai procurando uma estrada a seguir, uma crença, ou uma ideologia em geral. Mas, como em qualquer sociedade, existe sempre uma idéia dominante. Um grupo massivo de pessoas que tem algo em comum, uma estrada igual que todos desse grupo costumam seguir. Por osmose, é comum nós começarmos nossas vidas seguindo essa mesma estrada, caso nossos pais ou nossos superiores estejam nela, já que o papel inicial de um tutor é fazer sua cria em total semelhança.

Com o tempo, vamos crescendo e adquirindo nossa própria capacidade de pensar e decidir se queremos seguir nessa mesma estrada ou dar um novo rumo as nossas vidas. Partindo do pressuposto de que quando o homem resolve ir por outro lado, ele está “um passo a frente”, o natural seria abominar e criticar todos aqueles que não foram capazes de fazer o mesmo. Costuma-se notar isso quando se tratam de pessoas que não aceitam mais o Cristianismo e passam a acreditar em coisas afins. Maior parte destes criticam absurdamente aqueles que permanecem cristãos, afirmando que não possuíram a capacidade de ter um pensamento próprio.

Dentre estes mesmos, existe uma parcela menor que adquire um certo grau de evolução suprema, o grau de tolerância. Uma pessoa que se considera entendida, passa a tolerar mais a opinião do próximo. Então, ao invés de criticar e tentar mudar a mente de uma pessoa, por que não acreditar que a pessoa adquiriu seu pensamento próprio e quis continuar nessa mesma estrada? O homem é um ser complexo e todos os caminhos existentes no mundo são sempre muito adequados, só que cada um tem o seu determinado caminho.