"...sabe essa água que escorre pelos meus pulsos? É o suor, única maneira que meu corpo tem de extravasar o ódio que eu sinto por você...Sabe por que eu te odeio tanto? Porque vc é a única coisa que eu menos queria nessa vida. Você é uma imbecil que não entende e nunca vai entender a minha cabeça, sempre cheia de conversas e de coisas que afetam o meu bem-estar. Se eu pudesse, você nunca estaria como parte da minha vida, aqui dividindo a minha cama. Mas eu não posso, pois todo ser humano sente amor, mas precisa de ódio, e você cumpre bem o seu papel dentro de minha cabeça! As horas intermináveis de discussão que nós temos, por algum motivo fútil que a sua boca articula, me deixa surdo, me deixa tão surdo que é como se eu não cheirasse mais nada. Minha vida era realmente boa antes de você, eu me sentia em paz comigo mesmo, eu podia sair para onde eu quisesse e nunca havia ninguém para reclamar ou sequer tomar conta dos meus passos. Há cinco anos eu deixei isso e passei a ser um pedaço de sua vida, mas foi a decisão mais inútil que eu poderia ter tomado, a atitude mais inconsequente. Mesmo que eu tivesse um filho de doze anos, ele não daria uma mancada de tamanha gravidade, pois isso é uma façanha que só eu consegui. Todas as vezes que eu chego em casa, cansado do trabalho, e quero apenas dormir, e isso te incomoda, por que você não me diz outra hora? Seria insuportável do mesmo jeito, mas não tanto quanto. Sua voz é uma lamúria, seu olhar é uma marcha fúnebre que eu recuso aceitar dentro da minha partitura. Os anos em que vivemos juntos foram os piores da minha vida. E, para falar a verdade, não sinto tanto prazer assim quando te tenho nua na minha frente. Você é desagradável, Clara! Acho que eu sou o único homem nessa porcaria de lugar que suportou a sua presença por tantos anos. Nem a sua família deve gostar de você. Aquilo tudo que eu vejo durante aquelas reuniões cerimoniais devem ser uma pura façanha, porque eles devem mesmo é estarem felizes por sua ausência. Agora sou eu quem te aturo, sou eu quem te suporta. Eu te odeio! Eu te odeio mais do que as pessoas que eu mais poderia odiar dentro do meu trabalho. Eu não suporto como você consegue ser assim, tão desgastante. Por que você não sair da minha vida, me deixa em paz por inteiro??"
Minutos de silêncio. Eram 4:56 da manhã. Minutos depois, em uma virada brusca, o braço de Carlos toca em uma superfície gelada. Como a temperatura do seu corpo estava levemente acima do normal, esse toque o faz despertar. Ainda sonolento, os seus olhos se esforçam para abrir.
Quando por inteiros estes se abrem, ele nota que ao se virar na cama, sentiu a barriga descoberta de Clara, que estava gelado, mais do que o normal. Ela estava morta.
E nunca mais ele pôde pedir desculpas por ter sido tão egoísta e nem mesmo dizer que a ama mais do que tudo que nesse mundo podera existir.
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