segunda-feira, 3 de maio de 2010

O espelho

Ângela soube por uma amiga um tanto próxima. Aquela notícia que poderia mudar a vida dela completamente:
- Me disseram que naquela casa que não mora ninguém há tanto tempo existe um espelho. Neste, quando nos posicionamos em frente à sua estrutura quadricular, visualisamos o nosso amor, quem estará com a gente para sempre.
Bem, para ela, não era nada ainda tão provocante. Ângela ainda tinha seus 5 anos e aproveitava os momentos inocentes de uma infância gostosa. Na verdade, uma das infâncias mais gostosas e de causar mais inveja. Sua família era de classe média e ela tinha tudo para ser uma daquelas garotinhas mimadas que tinham tudo na mão. Mas não o era. Ângela era uma garotinha simples, ao mesmo tempo complexa. Preferia sentar e ver o formato que as nuvens faziam ao invés de sair ou brincar com os mil presentes que ela poderia ganhar por semana. Logo, aquela notícia era sim provocante.
A casa que Laura, a amiga da Ângela, comentou não era nem notável. Desde sempre ela foi vazia e pequena, em meio a tantos prédios e casarões. Muitas pessoas poderiam passar anos deixando passos corridos ou atrasados pelas calçadas dessa casa, mas se alguém perguntasse "sabe a casa abandonada?", talvez estas nem soubessem o que dizer.
Era uma casa de dois vãos, uma sala e um quarto. As cores externas, apesar de serem frutos de uma estrutura velha e machucada pelo tempo, tinham um tom sombrio, mas ao mesmo tempo vivo. Sim, é como se as rachaduras e os espaços nos quais deveriam haver telhados pudessem passar alguma vivacidade. O jardim não mais existia, pois carecia de cuidados. Há muito tempo diziam já ter visto algum morador, coisa de cinquenta ou sessenta anos atrás, mas nunca mais tocaram no assunto.
No momento em que Ângela soube desta notícia, decidiu, de imediato, comprovar se era verdade o que diziam. E então pensou consigo mesma:
- Por que não experimentar se isso é verdade? Eu poderia saber quem um dia seria o meu verdadeiro amor, e assim seria feliz para sempre!
Sem hesistar, olhou firme para sua amiga -um tanto exagerado, o que por segundos a assustou um pouco- e sem mais pensamentos, ela comentou:
- Minha mãe e meu pai vão sair hoje, por volta das seis horas. Poderíamos ir juntas e testar esse espelho conosco. O que você acha?
- Você tem certeza? Bem, se é o que você quer poderíamos sim, já que minha mãe permitiu passar a tarde na sua casa. - resondeu Laura, ainda menos empolgada que a sua amiga, mas pronta para acompanhá-la.
Laura nunca foi uma menina de pensamentos próprios. Acostumara-se a deixar que os outros pensassem por ela. É como se para ela pensar fosse algo cansativo, e ela deixaria o "trabalho mais duro" para as pessoas com mais aptidão ao seu redor. Sendo assim, foi exatamente a motivaçao de Ângela que levou-a a não desistir de entrar nessa ideia maluca que ela havia escutado por algum lugar do mundo.
Assim que os pais da Ângela se retiraram -foram ao supermercado, comprar alguma coisa que servisse para encher a barriga de pessoas como eles, que não sabiam cozinhar muito bem-, as duas já estavam prontas para abrir os portões de entrada da casa e seguir para onde encontrava-se o tal espelho.
Não era uma caminhada longa, pois tal casa encontrava-se a cerca de trinta ou quarenta metros. Nesse caminho, as duas apressavam-se para que não fossem notadas. À frente, tínhamos Ângela, com passos largos, mas decididos. Enquanto Laura ainda caminhava um pouco temerosa, mas parasita da confiança de sua amiga. O céu estava um pouco escuro e as primeiras estrelas já começavam a sair, com seus brilhos ainda um tanto surdos, devido aos últimos raios solares, que ainda rasgavam os céus da cidade movimentada que elas moravam desde que nasceram. E, dentre esses passos rápidos, Ângela murmurou:
- Nossa, o céu mais lindo que um dia eu já pude notar...
Enfim, chegaram à casa. Atravessaram ligeiramente o lugar aonde deveria ser o jardim. A porta encontrava-se um pouco emperrada, mas com um leve esforço maior, as duas, juntas, conseguiram abrir e entrar naquele vão escuro. De repente, Laura diz a sua amiga:
- Imaginei que estaria um pouco escuro, e roubei algumas velas e o isqueiro do seu pai, vou colocar luz nessa sala.
Por alguns instantes, Ângela esqueceu o motivo da sua ida à casa e observou sua amiga colocar as velas para iluminar o local e admirada por sua amiga, que costuma ser tão destrambelhada, ter pensado em algo tão minuncioso como aquilo. Mas em instantes voltou a si e olhou ao seu redor.
Após a penúltima vela, já dava para encontrar o espelho.
- Então esse espelho realmente existe...- susurrou Ângela, para si mesma. Talvez nem ela mesma tenha conseguido escutar, de tão baixo.
Ângela encarou a sua amiga, que a agora já acendera todas as velas que ainda restavam de sua bolsa de renda. As duas fixaram os olhares por alguns segundos, e um pouquinho de nervoso tomou conta do local. Como era de se esperar, foi Ângela quem deu a iniciativa, mas de inesperado, foi uma iniciativa diferente da que se poderia imaginar:
- Aí está o espelho. Por que não nos olhamos juntas? Talvez assim, no reflexo encontraríamos os nossos amores. O que você acha?
- Ah, é uma ótima ideia! - retrucou Laura.
As duas juntaram suas mãos e como se planejassem anteriormente, fecharam seus olhos, enquanto caminhavam em direção ao espelho que diria algo que poderia mudar a vida dessas duas crianças.
De pé, agora em frente ao espelho, foi a vez de Laura tomar a sua iniciativa:
-Pronta?
-Sim, estou pronta.
Então, elas vagarosamente abriram os seus olhos. O foco dos quatro olhos ainda eram o chão, pois mesmo prestes a ver o que o espelho guardava, as duas estavam um pouquinho nervosas.
Agora, finalmente encarando o espelho, as duas tomaram um susto enorme:
- Mas eu só vejo a nós mesmas no reflexo! - Disse Laura, ainda espantada.
Naturalmente, poderiam imaginar que fosse mais uma lenda urbana ou coisa do tipo. Mas não foi o que se passou na cabeça de Ângela naquele momento. Ela se pôs a pensar que tudo aquilo realmente poderia ser verdade, e que tudo aquilo mostrara que Laura seria a menina que um dia se tornaria o seu amor. Então, sem que ninguém percebesse, ela deu um sorriso no canto dos seus lábios e disse:
- Vamos para casa?
- Vamos.
Vinte e três anos depois, Ângela está uma mulher fenomenal, talvez a mulher mais linda que a cidade poderia notar. Ela tinha uma beleza cativante, dona de um olhar e um semblante que pararia qualquer pessoa, por mais ocupada que estivesse naquele exato momento. Ao seu lado, encontra-se Laura, também linda, mas não tanto quanto a enigmática Ângela. E assim, Laura diz:
- Amor, aqui está o seu café....Já disse que te amo hoje?
- Não, meu amor. Eu também te amo. Em pensar que tivemos que ir até um espelho para descobrir que você era a mulher que iria me amar até o fim dessa vida.
As duas sorriram contentes, mas ao mesmo tempo satisfeitas de terem descoberto o espelho cedo o suficiente para ficarem bastante tempo juntas.
O espelho? Encontra-se no mesmo lugar, para pessoas que ainda não descobriram a magia do amor. Mas de uma coisa as duas tinham certeza: ninguém nunca o descobriria do mesmo jeito que elas o fizeram.

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